Deuses Africanos

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quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Apresento o Conto Célebre de uma escritora inigualável que muito marcou minha trajetória acadêmica e a quem devo meu olhar fino em relação a literatura como um todo.








TENTAÇÃO

Clarice Lispector
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
   Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária. Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
   Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
   Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
   A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.
    Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.
    Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
   Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
   No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
   Mas ambos eram comprometidos.
   Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.
   A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhou-o com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
   Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás
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Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.


O presente conto explora as nuances estabelecidas diante de um choque de identidades, de reconhecimentos existentes entre dois seres que correspondiam - se mutuamente, mas que de forma abalada não concretizaram seus destinos. 
Dois elementos importantíssimos estão presentes neste conto e em praticamente todos os que Clarice escreveu que são, o fluxo de consciência identificado pela escrita corrida, a qual registra todo o pensamento da forma como ele se apresenta.

" o fluxo de consciência considerado por levar à radicalização extrema do monologo interior (ROSENFELD, 1973, p.83) o fluxo de consciência utilizado pela autora no conto é trabalhado com a livre exposição das ações, das atitudes e comportamentos do personagem frente à situação que se constrói no enredo." (Fragmento extraído do meu Plano de Aula de Literatura com embasamento de alguns autores)

O presente fragmento que retirei de um plano de aula realizado no período acadêmico expõe o funcionamento do fluxo no conto. A seguir apresento a continuação dessa análise:

" Está presente no conto a angústia da menina na situação “inconformada” em que ela está e também pelo desejo que se manifesta ao manter um contato com o cachorro que lhe traz um momento de epifania, ela olha aquele animal não com olhos de achá-lo animal, mas com olhos de desejo.
Clarice Lispector articula com as palavras modo simples, incisivo, objetivo ao descrever minuciosamente o local, a ação a personagem, todo o cenário ligado às reminiscências do personagem, que se misturam nas suas próprias, numa angústia por ajuda e ao mesmo tempo por acolhida, às vezes perto do personagem às vezes distante deste. (COUTINHO, 1986, p. 275-77)
Uma confissão, uma descrição, um momento de ligação com o eu mais misterioso, mais profundo que habita entre nós e aquele comum, cotidiano numa cena que ia além da própria compreensão, mas que buscava uma sensação muito mais profunda. ( COUTINHO, 1986, p. 526 – 531)" 
Conforme citado, o próximo elemento é a epifania muito forte neste conto e definida da seguinte forma pela crítica Nadia Gotlib: 
“Epifania, tal como a concebeu James Joyce, é identificada como uma espécie ou grau de apreensão do objeto que poderia ser identificado com o objetivo do conto, enquanto uma forma de representação da realidade.” (2006, p. 51). 

Assim definido este elemento é tão importante para a construção do conto porque estabelece um grau de reconhecimento com a verdade encarada pela personagem que em meio a existência ínfima descobre - se para além daquele momento singular na vida.
Vejamos,

" Neste trecho dá-se o momento especial da epifania, pois a menina com o olhar completamente voltado para o cachorro ruivo enxerga-o com outros olhos que não os de uma simples dona e seu cão, mas sim com olhos de admiração, beleza e encanto além de haver em trechos como,
            entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava à menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro”;
“ Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento surpreendidos.”
Neste trecho ficam visível os traços de uma paixão impossível diante do encontro entre ambos, não de uma menina e um simples cão, que sente carinho por ter um animal de estimação, mas de uma menina, que não é ainda mulher e sente pelo animal um amor, uma paixão proibida, como se ela fosse também um animal, com as mesmas características.
Neste fragmento acima fica visível a intensidade dos sentimentos, além do que mais adiante se vê o que impossibilita que isso aconteça diante das circunstâncias presentes que são “ ambos eram comprometidos” ; “ ela com sua infância impossível, o centro da inocência...” ; “ Ele, com sua natureza aprisionada”.
O título do conto “ Tentação” sugere diante da história algo que é proibido que foge as leis bíblicas, ou seja, algo que é considerado “pecado”, pois não é natural é “sujo”, não vem de Deus, vem do Diabo, e justamente por isso existe o sentimento de impossibilidade, de uma relação impossível diante de Deus e se caso o pecador ousar realiza-la será punido.
Neste trecho fica visível o rompimento do momento de epifania, pois existe o retorno ao “real” e já não se pode mais prolongar essa sensação tão forte e tão intensa que é quebrada quando,
 “ Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria,...”,
Neste fragmento o instante do sonho que se quebrou é quando o cão se desprega da menina e retorna a normalidade, ainda que sonâmbulo, mas a menina ainda sem acreditar tem em si o instante de identificação incompreendida que passa como se tivesse recebido um choque elétrico pelo grau de perturbação que passou.
E esta aura de sensações segue até o momento em que ele já não pode manter essa aproximação com ela, pois é tão grande que ocorre à quebra, a ruptura desse enlace terminando por um retorno à vida cotidiana."
Os trechos citados registram todo o trabalho realizado para a análise do conto.
A seguir finalizo com algumas definições de teóricos,

" Os textos teóricos utilizados foram a “Teoria do Conto” de Nadia Battella Gotlib e “Texto e Contexto” de Anatol Rosenfeld os quais se pode trabalhar com as concepções de “epifania” e “fluxo de consciência”, que são definidos a seguir:
            Em relação ao fluxo de consciência,

“A consciência da personagem passa a manifestar-se na sua atualidade imediata, em pleno ato presente, como um Eu que ocupa totalmente a tela imaginária do romance. Ao desaparecer o intermediário, substituído pela presença direta do fluxo psíquico, desaparece também a ordem lógica da oração e a coerência da estrutura que o narrador clássico imprimia à seqüência dos acontecimentos.” (ROSENFELD, 1973, p.84)

Nesta citação, Rosenfeld constata a concepção do fluxo de consciência que perfeitamente esta presente no conto por uma livre exposição dos pensamentos ao que se mescla a um subjetivismo, além do enfoque microscópico dado a vida psíquica (ROSENFELD, 1973, p.85)

Quanto à epifania,

“ é identificada como uma espécie ou grau de apreensão do objeto que poderia ser identificada com o objetivo do conto, enquanto uma forma de representação da realidade.” (GOTLIB, 2006, p.51 )

“ Para Joyce, segundo um dos capítulos do seu Stephen Hero, epifania é uma manifestação espiritual súbita, em que o objeto se desvenda ao sujeito.”(GOTLIB, 2006, p. 51)

                                      
Nesta citação fica visível o que é, e como é a epifania, que segundo Gotlib é um momento especial em que temos um conflito dramático de modo geralmente rápido e instantâneo. O personagem se dá conta da aparência desse objeto como algo belo considerando-o todo em sua simetria que ao se desprender de sua alma assume um brilho especial.
De modo sucinto esses dois traços especiais, além da forma estilística da escritora são caracterizados como traços singulares de uma escrita bem trabalhada com linguagem por vezes metafórica, em que valoriza as questões oníricas, numa atmosfera intensamente poética.
A linguagem aparentemente simples da escritora engana, pois o detalhe está profundamente presente no texto, que se desmantela dos discursos lógicos para um discurso poético num tom quase familiar em meio a uma realidade opaca e estática, que anseia por uma mudança, mas não ocorrendo promove um momento de tensão em busca de uma liberdade de consciência. (COUTINHO, 1986, p. 529-30) "
Por fim finalizo com outras citações,

" A desarticulação com a realidade se figura na ação intensa o qual o personagem experimenta de modo romântico, mas não articula-la com a realidade existente ocasionando a perda da liberdade e volta da vida cotidiana. (COUTINHO, 1986, p. 532-33)"




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